Execução de ex-delegado mobilizou tecnologia e prisões em tempo recorde, mas expõe contraste gritante com a morosidade enfrentada por vítimas anônimas
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| Investigações rápidas no caso do ex-delegado expõem contraste com a lentidão em crimes contra cidadãos comuns. Foto: Reprodução/Internet. |
A morte do ex-delegado-geral da Polícia Civil de São Paulo, Ruy Ferraz Fontes, em Praia Grande, desencadeou uma operação policial que impressiona pela rapidez. Em apenas uma semana, quatro suspeitos foram presos, três seguem foragidos e outros possíveis envolvidos já estão na mira das autoridades. O Departamento Estadual de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) apresentou nomes, rostos e até vestígios genéticos que conectam criminosos ao caso. Uma resposta ágil, organizada e exemplar.
Mas a eficiência, que deve ser reconhecida e celebrada, também revela uma ferida incômoda: por que essa engrenagem só parece girar com força máxima quando a vítima é alguém de renome? Por que tantas famílias comuns, que choram seus mortos em circunstâncias igualmente brutais, não recebem a mesma celeridade investigativa?
A lista de suspeitos do crime contra Fontes é detalhada. Há nomes, apelidos, papéis na execução, provas materiais e até os vínculos com a facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC). Tudo isso em sete dias. Enquanto isso, mães, pais e filhos de vítimas sem notoriedade aguardam meses — ou anos — por qualquer avanço em inquéritos que parecem ter caído no esquecimento.
Não se trata de condenar a velocidade neste caso. Ao contrário: é prova de que o Estado dispõe de instrumentos, inteligência e tecnologia capazes de agir com precisão cirúrgica. O problema é quando essa eficácia é distribuída de forma desigual, quase como um privilégio para poucos. É um contraste que escancara uma justiça seletiva, que trata a vida de uns como urgente e a de outros como descartável.
O assassinato de Ruy Ferraz Fontes, por sua trajetória de combate ao crime organizado, justificou atenção especial e ampla mobilização. É natural que a corporação se mova com vigor para desvendar a execução de um dos seus. Entretanto, o que deveria ser exceção não pode se transformar em regra: vidas anônimas também exigem respostas rápidas, porque o direito à justiça não deveria depender do sobrenome da vítima ou de sua posição de poder.
O caso expõe o que já se sabe, mas poucos verbalizam: a engrenagem policial funciona em velocidades distintas. O desafio é transformar o que hoje parece privilégio em padrão. Afinal, a justiça só será verdadeiramente justa quando correr com o mesmo empenho para todos.


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