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Era tudo mentira! Ex-PM expulso em 2006 admite ter simulado sequestro que travou o Rodoanel

Dener Laurito, hoje caminhoneiro, confessou ter armado sozinho a falsa ocorrência com “bomba” e sequestro que paralisou por horas o Rodoanel Mário Covas

Carreta atravessada no Rodoanel Mário Covas durante a falsa ocorrência de sequestro com explosivos, que mobilizou equipes especializadas e travou o trânsito por horas na Grande São Paulo. Foto: Reprodução.

O caminhoneiro Dener Laurito dos Santos, de 52 anos, voltou ao noticiário de segurança pública por um motivo que nada tem a ver com heroísmo. Ex-soldado da Polícia Militar de São Paulo, ele foi expulso da corporação em 2006 por conduta classificada como desonrosa e falta disciplinar grave. Agora, quase duas décadas depois, é novamente alvo de investigação após admitir que forjou um sequestro com explosivos no Rodoanel Mário Covas, na região metropolitana de São Paulo.

A encenação aconteceu na manhã de 12 de novembro, quando a carreta dirigida por Dener ficou atravessada na pista externa, na altura de Itapecerica da Serra, bloqueando totalmente o sentido Rodovia Presidente Dutra e provocando, durante mais de cinco horas, um congestionamento que se estendeu por dezenas de quilômetros em um dos principais corredores logísticos do país.

Na ocasião, equipes da Polícia Militar Rodoviária, do Grupo de Ações Táticas Especiais (GATE) e outros órgãos de emergência foram mobilizadas como se estivessem diante de uma situação real de sequestro com bomba. O motorista foi encontrado amarrado com fios, ao lado de um suposto artefato explosivo, aparentando desorientação e quadro de surto. A via só começou a ser liberada após a confirmação de que o artefato era um simulacro.

Dias depois, a narrativa desmoronou. Em interrogatório realizado na Delegacia de Taboão da Serra, em 19 de novembro, Dener confessou à Polícia Civil que inventou toda a ocorrência. Confrontado com imagens de câmeras de segurança e contradições em seu depoimento, ele admitiu que jogou uma pedra contra o próprio para-brisa, manobrou o caminhão para atravessá-lo na pista e se amarrou sozinho ao simulacro de explosivo.

Segundo o que foi apurado, a justificativa apresentada pelo motorista foi a intenção de chamar atenção para reivindicações dos caminhoneiros. Ou seja, um protesto individual transformado em operação de alto risco, com uso indevido de aparato policial e paralisação de uma infraestrutura estratégica de mobilidade e transporte de cargas na Grande São Paulo.

O histórico de Dener ajuda a dimensionar a gravidade do caso. A própria Polícia Militar confirma que ele integrou a corporação até 2006, quando foi desligado por “atos desonrosos”, expressão usada em nota oficial para designar faltas graves à disciplina, embora o governo do Estado e a PM não tenham detalhado quais foram essas condutas. Agora, já na iniciativa privada, trabalhava como motorista colaborador da transportadora Sitrex, responsável pela carreta envolvida no episódio.

No campo penal, a simulação não é tratada como uma simples “brincadeira de mau gosto”. Dener já foi indiciado por falsa comunicação de crime, mas especialistas apontam que o enquadramento jurídico pode ir além. A conduta pode também ser enquadrada em dispositivos que tratam de exposição de terceiros a perigo direto e iminente e de atentados contra o funcionamento de serviços de utilidade pública – categoria na qual o Rodoanel se encaixa por ser eixo central da logística paulista. Nesse cenário, a pena deixa de ser apenas simbólica e pode chegar a alguns anos de reclusão, além de multa.

A investigação segue sob responsabilidade da Delegacia de Investigações sobre Entorpecentes (Dise) de Taboão da Serra, que tenta amarrar todas as pontas: desde a preparação da falsa bomba até a real extensão dos danos à coletividade, passando pela avaliação do estado psicológico do motorista no momento da ocorrência. Embora o surto relatado pelas autoridades faça parte do contexto, o planejamento prévio descrito no inquérito – montagem do simulacro, escolha do ponto da rodovia e encenação meticulosa – aponta para uma ação consciente, com potencial de causar acidentes graves e pânico generalizado.

Enquanto a Justiça avalia a responsabilidade criminal de Dener Laurito dos Santos, o caso fica como um exemplo de como um ato individual, planejado e revestido de narrativa de “vítima”, pode impor prejuízos coletivos, travar uma região inteira e ainda consumir tempo e recursos de quem deveria estar salvando vidas em emergências reais.


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