Contrato de 20 meses consumirá R$ 2,2 milhões para consultoria, governança, revisão de processos e protocolos — sem novos serviços, novas especialidades ou médicos do Einstein atendendo presencialmente no Irmã Dulce
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| Praia Grande assinou contrato de R$ 2,2 milhões e duração de 20 meses para consultoria e assessoria técnica do Einstein no Hospital Municipal Irmã Dulce. Foto: Reprodução. |
R$ 2,2 milhões. E não é para comprar remédio. Não é para abrir leito. Não é para colocar uma nova especialidade à disposição do paciente. Também não é para trazer médicos do Einstein para atender dentro do Hospital Irmã Dulce.
É para consultoria.
A Prefeitura de Praia Grande assinou um contrato de 20 meses com o Einstein Hospital Israelita para mexer na governança, analisar processos, revisar protocolos, reorganizar fluxos, qualificar equipes e apontar caminhos para melhorar a gestão hospitalar.
O valor: R$ 2,2 milhões.
A cifra pesa ainda mais quando colocada diante da realidade recente da saúde municipal.
Em reportagem anterior, mostramos episódios de falta de medicamentos na rede, inclusive itens básicos. Houve também problemas operacionais capazes de produzir uma cena difícil de explicar ao usuário do SUS: paciente em tratamento com antibiótico esbarrando em protocolos e na falta de integração entre unidades para simplesmente continuar recebendo a medicação.
É nesse cenário que milhões agora serão empregados para ensinar a máquina a organizar processos, fluxos e protocolos.
A própria descrição oficial mostra que o trabalho contratado estará concentrado em instrumentos de gestão, orientação técnica, acompanhamento, governança corporativa e transferência de conhecimento.
Tudo isso pode ter valor técnico. Mas R$ 2,2 milhões transformam qualquer consultoria pública em assunto que exige lupa.
Principalmente quando, na outra ponta, o morador não cobra “governança corporativa”. Cobra remédio. Cobra atendimento. Cobra uma rede capaz de conversar consigo mesma sem empurrar o paciente de uma unidade para outra.
Há ainda um ingrediente político impossível de ignorar no calendário: o contrato foi assinado neste mês de setembro, em plena campanha das eleições gerais, cujo primeiro turno ocorre em 4 de outubro. Isso, por si só, não demonstra finalidade eleitoral, mas amplia a necessidade de transparência sobre cada centavo aplicado.
Agora serão 20 meses de consultoria.
Para o cidadão, entretanto, o julgamento será muito menos sofisticado: depois de R$ 2,2 milhões, a farmácia estará abastecida? Os protocolos vão funcionar? O paciente deixará de peregrinar?
Porque consultoria pode produzir diagnóstico, relatório, fluxo e reunião.
Na saúde pública, porém, quem chega doente precisa mesmo é de solução.

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