Ex-delegado Ruy Ferraz confrontou Alberto Mourão sobre contrato de R$ 14 milhões, preparava dossiê interno e acabou executado
A trajetória final de Ruy Ferraz Fontes dentro da Prefeitura de Praia Grande foi marcada por tensão, alertas internos e um conflito direto no coração da administração municipal. Ex-delegado-geral da Polícia Civil e então secretário de Administração, Ferraz teria confrontado o prefeito Alberto Mourão sobre uma licitação considerada irregular dias antes de ser executado, segundo depoimento de uma servidora de carreira do município.
O foco do embate foi um pregão eletrônico para contratação de sistema de monitoramento, orçado em R$ 14 milhões. No processo, as três empresas que apresentaram as melhores propostas foram desclassificadas por critérios técnicos, o que abriu caminho para a vitória da quarta colocada, a empresa Peltier. O resultado causou indignação no secretário, que passou a questionar internamente as decisões tomadas.
De acordo com o depoimento da servidora Ana Paula Lisboa, funcionária da prefeitura há 38 anos, Ferraz ficou “muito irritado” após discutir o caso com servidores responsáveis pelo certame e decidiu levar o tema diretamente ao prefeito.
Ao levar as irregularidades diretamente ao gabinete de Mourão, Ferraz teria ouvido o que não esperava. Segundo depoimentos, o prefeito determinou a manutenção do resultado que favorecia a Peltier. O secretário, no entanto, não recuou. Ele já rascunhava um dossiê explosivo, citando ao menos onze certames sob suspeita e servidores que, segundo suas próprias palavras, estariam ricos e vivendo em apartamentos de luxo. Entre os nomes no radar do ex-delegado estava Sandro Rogério Pardini, subsecretário de Gestão e Tecnologia, que contava com o respaldo de figuras influentes no círculo familiar do prefeito, como o secretário de Governo Cássio Navarro e Fábio Glerean, ambos genros de Mourão.
A hipótese de que o assassinato do ex-delegado pudesse estar relacionado à disputa pelo contrato chegou a ser considerada durante a investigação da Polícia Civil. No entanto, ao formalizar a denúncia, o Ministério Público de São Paulo adotou outra linha: atribuiu o crime ao Primeiro Comando da Capital, sustentando que a motivação estaria ligada à atuação anterior de Ferraz na polícia, sem fazer menção às licitações suspeitas.
A denúncia, embora descreva a logística do crime e o envolvimento de oito acusados, não individualiza mandantes nem detalha com precisão a execução. Digitais, vestígios genéticos e o uso de imóveis de apoio fundamentam a acusação, mas deixam lacunas sobre quem ordenou e quem efetivamente atirou. Um dos suspeitos apontados como possível atirador morreu meses depois, em Curitiba, em um suposto confronto policial.
Entre alertas ignorados, documentos em preparação e um contrato milionário mantido apesar das contestações, a morte de Ruy Ferraz permanece cercada por versões que não se cruzam. De um lado, um secretário que denunciava irregularidades internas; de outro, uma investigação que separa oficialmente o homicídio do contexto administrativo.


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