Paralisação por tempo indeterminado atinge refinaria, terminais e plataformas e evidencia o embate entre lucros bilionários e reivindicações da categoria
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| Petroleiros se reúnem em assembleia em frente à Transpetro, marcando o início da greve por tempo indeterminado na Baixada Santista. Foto: Divulgação/Sindipetro. |
O silêncio das máquinas e o fechamento das portarias marcaram a madrugada desta segunda-feira (15) na Baixada Santista. À meia-noite, petroleiros e petroleiras iniciaram uma greve nacional por tempo indeterminado, com impacto imediato em unidades estratégicas da região. Cerca de três mil trabalhadores aderiram à paralisação, que tem como eixo central o impasse nas negociações do Acordo Coletivo de Trabalho com a Petrobras.
Na Refinaria Presidente Bernardes, em Cubatão, todas as entradas amanheceram bloqueadas por piquetes organizados. O movimento foi acompanhado de perto pelo Sindicato dos Petroleiros do Litoral Paulista, com apoio de outras entidades sindicais e organizações sociais. Segundo o sindicato, a mobilização ocorre de forma coletiva e voluntária, com diálogo permanente inclusive com trabalhadores contratados.
A paralisação se estendeu por toda a base do Litoral Paulista, alcançando a Unidade de Tratamento de Gás de Caraguatatuba, o Terminal Almirante Barroso, em São Sebastião, os terminais de Pilões e de Santos, a UTE-EZR e a Edisa Valongo, em Cubatão. No mar, plataformas do pré-sal e a de Mexilhão também registraram adesão, reforçando o caráter nacional do movimento.
De acordo com a entidade sindical, a greve é resultado de quase cinco meses de negociações sem avanços concretos. A proposta apresentada pela estatal prevê ganho real considerado mínimo, restrito a parte da categoria, sem contemplar aposentados e pensionistas. Os trabalhadores cobram a recomposição das perdas salariais acumuladas desde 2019, além de melhorias nas condições de saúde e segurança, recomposição de efetivo e a reversão de medidas vistas como retrocessos em direitos históricos.
O contraste entre as reivindicações e os números da empresa é um dos pontos centrais do discurso sindical. A categoria destaca que a Petrobras acumulou lucro líquido de R$ 94,5 bilhões até setembro de 2025, com parcela significativa destinada ao pagamento de dividendos. Na avaliação dos trabalhadores, esse cenário evidencia uma política que prioriza a remuneração do capital enquanto impõe contenção aos salários e benefícios de quem mantém a operação da companhia.
Além do aspecto financeiro, o sindicato aponta mudanças que afetam diretamente o cotidiano da categoria, como alterações na assistência médica, redução de garantias no retorno de férias, manutenção da supressão de folgas em regimes especiais e ausência de avanços no teletrabalho. Soma-se a isso a tentativa de condicionar o adiantamento da participação nos lucros à assinatura do acordo até o fim do ano, o que, para os grevistas, aprofunda a tensão.
Em nota, a Petrobras informou que houve manifestações em unidades da companhia, mas afirmou que não há impacto na produção de petróleo e derivados. A estatal diz ter adotado medidas de contingência para garantir a continuidade das operações e assegura que o abastecimento ao mercado segue normal. A empresa também reafirmou que respeita o direito de manifestação e mantém canais permanentes de diálogo com as entidades sindicais.
A Autoridade Portuária de Santos informou que a greve não afetou as operações do porto, enquanto a Transpetro segue realizando o fornecimento de bunker aos navios normalmente. Ainda assim, o impasse permanece aberto. O sindicato afirma continuar buscando negociação para minimizar impactos à população, mas atribui à postura da empresa a responsabilidade pelo prolongamento da paralisação.
Sem acordo à vista, a greve avança como um retrato de um conflito maior: de um lado, resultados expressivos e compromissos com o mercado; do outro, uma categoria que cobra reconhecimento proporcional ao peso estratégico que carrega na economia da região e do país.


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