Extinção de linhas, atrasos de até duas horas e idosos mandados “pegar Uber” escancaram o desrespeito no transporte público da cidade
Em Itanhaém, a cena se repete dia após dia: um ônibus com destino ao Centro encosta no ponto já lotado, enquanto a fila de passageiros se estende pela calçada. Muitos aguardam há mais de uma hora, alguns há quase duas. Para quem depende do transporte coletivo, o que a Prefeitura insiste em chamar de “serviço público” virou sinônimo de improviso, descaso e humilhação cotidiana.
A extinção da linha Jd. Ieda – Suarão, somada à mudança de outros itinerários sem qualquer aviso prévio, foi a faísca que acendeu a revolta. Moradores foram simplesmente informados, na marra, de que a rotina teria de se adaptar ao cronograma da empresa – e não o contrário. Quem chegava ao ponto no dia seguinte descobria, na prática, que o ônibus não passaria mais. Não houve campanha de comunicação, aviso em abrigos, nem diálogo com os usuários. Apenas silêncio administrativo e confusão nos bairros.
No Cibratel, desde que o antigo bondinho foi retirado, o tempo de espera entre um ônibus e outro pode chegar a duas horas. Para estudantes, perder um único coletivo na hora da entrada significa, na melhor das hipóteses, chegar muito atrasado; na pior, perder a aula. Mesmo em horário escolar, o próximo ônibus não vem antes de uma hora. Em uma cidade que gosta de se vender como “turística” e “em desenvolvimento”, jovens e adultos ficam presos em pontos de ônibus, como se frequentar a escola ou ir ao trabalho fosse um luxo e não um direito.
Ao tentar reclamar, o cidadão descobre outro lado do problema: o do atendimento. Segundo relatos, a resposta que vem da Prefeitura ou da empresa é sempre a mesma: não compensa colocar mais veículos porque boa parte dos usuários é idosa. A mensagem implícita é cruel: idosos não contam na equação. Desde quando levar idoso é favor? Transporte público não é cortesia, é obrigação contratual. Quando o poder público aceita esse tipo de argumento, assume que algumas vidas valem menos do que outras.
Para agravar o desrespeito, há relatos de atendentes orientando moradores a “pegar um Uber” – sugestão que, além de debochada, ignora a realidade de quem depende do ônibus porque não tem como pagar corrida de aplicativo todos os dias. É como se o recado fosse: o sistema não funciona para você, se vire. Faltam ônibus, sobram desculpas.
A concessão do transporte urbano está hoje nas mãos da Sancetur (SOU), que assumiu a operação em 2024. A Prefeitura chegou a anunciar a renovação da frota com 12 novos ônibus urbanos, com direito a discurso sobre modernização e redução da idade média dos veículos. No site da própria empresa, o serviço é apresentado como “um dos mais confiáveis, seguros e acessíveis” do país, com orgulho declarado de “oferecer o melhor”. No papel, o sistema parece de primeiro mundo. No ponto de ônibus, a realidade é de abandono.
E não se trata de um problema recente. Há anos moradores de bairros como Gaivota, Cesp, Vila Loty, Campos Elíseos e 4ª Agência reclamam de atrasos constantes, longos intervalos entre viagens e falta de linhas suficientes para atender a demanda. Trocam-se contratos, mudam-se empresas, mas a sensação é de que o passageiro continua em último lugar na lista de prioridades.
As queixas se repetem: atrasos de mais de uma hora, superlotação nos poucos horários em que há ônibus, itinerários mal planejados, veículos que não dão conta das necessidades da população. A confiabilidade do sistema é tão baixa que chegou ao ponto de muitos moradores “contarem com o atraso”, saindo de casa muito antes do necessário só para garantir que não perderão consulta, prova, serviço ou atendimento básico. Não é planejamento: é sobrevivência.
Enquanto isso, plataformas de reclamação de consumidores registram insatisfações frequentes com o serviço prestado pela empresa em outras cidades, indicando problemas de qualidade e atendimento que parecem se repetir em Itanhaém. A diferença é que, aqui, essas falhas se somam a uma administração municipal já pressionada por graves deficiências em áreas como saúde e educação – e o transporte vira mais um capítulo de uma gestão que parece ter perdido a conexão com a realidade de quem vive na periferia e nos bairros mais afastados.
Não é questão de cor partidária, de disputa eleitoral ou de narrativa política. É uma questão básica de direito de ir e vir. Quando o transporte público falha desse jeito, o que se compromete não é apenas o deslocamento diário: é o acesso à escola, ao posto de saúde, ao emprego, ao comércio local. É a qualidade de vida de uma população inteira sacrificada em nome de contratos, discursos prontos e propaganda de frota nova.
Enquanto a Prefeitura se apoia em releases bem produzidos e fotos de ônibus zero quilômetro, as filas nas paradas contam outra história. Cada passageiro que espera duas horas por um coletivo que não chega é um lembrete de que algo está muito errado na forma como a cidade trata seus moradores. Em Itanhaém, o ônibus pode até ter ar-condicionado e pintura nova. O problema é que, para muita gente, ele simplesmente não passa.


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