Show sertanejo de réveillon expõe contraste entre gasto milionário e carências históricas em saúde, educação e moradia na cidade industrial
A Prefeitura de Cubatão decidiu começar 2026 em “grande estilo”: a dupla sertaneja Maiara & Maraisa comandará o show da virada na noite de 31 de dezembro, em estrutura montada na orla do Jardim Casqueiro. Pelo contrato firmado com a empresa Geminis Produções Artísticas, o município vai desembolsar R$ 900 mil por uma única apresentação, viabilizada por inexigibilidade de licitação, modalidade usada quando há contratação de artistas de notória especialização.
As chamadas “Patroas” construíram carreira nacional a partir de 2016, com sucessos como “10%” e “Medo Bobo”, tornando-se um dos nomes mais disputados do chamado feminejo, o sertanejo protagonizado por vozes femininas. Agora, o mesmo repertório que lota arenas Brasil afora será bancado pelos cofres de uma cidade marcada por profundas desigualdades: enquanto o som do palco ecoa na beira-mar, Cubatão ainda convive com assentamentos precários, moradias em palafitas e encostas ocupadas há décadas.
Dados recentes mostram que duas das maiores favelas da Baixada Santista estão justamente em Cubatão, caso da Vila Esperança e da Vila dos Pescadores, onde se concentram famílias com renda per capita muito baixa e alta vulnerabilidade social. Em áreas como essas, falta de saneamento adequado, risco de alagamentos, dificuldade de acesso a serviços públicos essenciais e moradias improvisadas seguem sendo parte da rotina. É nesse cenário que quase R$ 1 milhão é reservado para algumas músicas, um palco monumental e uma contagem regressiva de poucos minutos.
A opção por grandes shows pagos com dinheiro público não é exclusividade de Cubatão, mas vem sendo cada vez mais questionada no país. Em novembro, a Justiça chegou a barrar um show de Maiara & Maraisa orçado em R$ 654 mil no município de Governador Nunes Freire (MA), apontando “contrassenso ético e jurídico” em gastar centenas de milhares de reais em festa enquanto servidores enfrentavam atraso de salários e benefícios básicos. O episódio reforça o debate sobre qual deve ser a prioridade de municípios com graves problemas sociais: entretenimento de alto custo ou políticas públicas estruturantes.
Em Cubatão, a aposta da Administração tem sido vender a imagem de um réveillon “histórico”, com grandes nomes no palco e promessa de atrair multidões ao Píer do Casqueiro, repetindo o modelo que em anos recentes já reuniu dezenas de milhares de pessoas na virada. Na outra ponta da cidade, porém, quem sobe e desce os morros, enfrenta ônibus lotados, unidades de saúde sobrecarregadas e escolas que ainda lutam contra a falta de estrutura vê o show milionário como mais um símbolo da distância entre o discurso de “cidade transformada” e a realidade dos bairros mais pobres.
Mais do que a presença de uma dupla sertaneja famosa, o que está em jogo é a mensagem enviada pelo orçamento: quando quase R$ 1 milhão é reservado para uma única noite de espetáculo, a pergunta que ecoa entre muitos moradores é se essa é, de fato, a virada de ano que Cubatão mais precisa.


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