Últimas Notícias

8/recent/ticker-posts

Fogos no céu, sucata no chão: Praia Grande prepara mega Réveillon em meio a buracos na vida real

Prefeitura anuncia show pirotécnico em seis pontos da orla, enquanto o município convive com orçamento apertado e pontos de ônibus que desabam sobre crianças

Queima de fogos anterior em Praia Grande registrada do mar, com a orla tomada por moradores e turistas sob o espetáculo pirotécnico. Foto: Arquivo/Reprodução/Prefeitura de Praia Grande.

A virada de 2025 para 2026 em Praia Grande já tem roteiro oficial: dez minutos de fogos silenciosos espalhados por seis trechos da faixa de areia, do Canto do Forte ao Caiçara, acompanhados por megatelões de LED que vão transformar a orla em um grande palco a céu aberto. A promessa da Prefeitura é de “momentos inesquecíveis” para moradores e turistas, com direito a contagem regressiva em painéis de até 15 metros de altura e programação estendida ao longo de todo o verão, incluindo cinema na praia e clipes de shows do Estação Verão Show.

O discurso oficial é sedutor: uma cidade que se reafirma como destino turístico nacional, capaz de receber milhões de visitantes, gerar empregos e aquecer a economia local. Os seis pontos de queima de fogos – Forte, Boqueirão, Aviação, Tupi, Mirim e Caiçara – são apresentados como um presente para quem escolhe Praia Grande para viver ou passar as férias. O espetáculo, garantem as peças institucionais, será moderno, sustentável, com fogos de baixo ruído e mensagens educativas nos telões, misturando entretenimento, segurança e consciência ambiental.

Mas basta tirar os olhos do céu e olhar para o chão para perceber que a paisagem é menos luminosa. Em março, a própria Prefeitura divulgou que o orçamento de 2025 chegou subestimado em áreas sensíveis: enquanto a coleta de lixo gastou R$ 100 milhões em 2024, só R$ 60 milhões foram reservados para 2025. Para reduzir a fila de mais de 80 mil pacientes que aguardam exames e consultas, seriam necessários R$ 25 milhões, mas o valor previsto foi de R$ 9,5 milhões. Para material escolar e manutenção das escolas, nenhuma dotação específica foi deixada, embora a necessidade estimada seja de R$ 15 milhões.

É nesse mesmo município de “gestão eficiente” e contingenciamento de 8% nas despesas que uma menina de 7 anos foi ferida quando a estrutura metálica de um ponto de ônibus desabou sobre ela, no bairro Cidade da Criança, enquanto esperava o transporte escolar. O abrigo apresentava desgaste avançado e este foi o segundo desabamento de cobertura em menos de um mês na cidade, o que obrigou a administração a correr para anunciar um novo contrato de manutenção de pontos de ônibus. 

O contraste é eloquente: abrigos sucateados, corroídos pela ferrugem, desabando sobre usuários do transporte coletivo, de um lado; do outro, estruturas cenográficas na areia, telões gigantes e show pirotécnico cronometrado ao segundo. A mesma orla que vê turistas vibrarem com o brilho dos fogos é a que recebe, todos os dias, trabalhadores que dependem de um ônibus que talvez nem chegue a tempo – e, quando chega, pode vir acompanhado de uma marquise insegura acima da cabeça.

Outra peça desse quebra-cabeça está na conta que ninguém gosta de detalhar: quanto custa esse espetáculo. O release oficial da Prefeitura exalta a beleza do Réveillon, mas não menciona o valor do contrato dos fogos e da estrutura de apoio.

Serão seis pontos concentrados na orla, com balsas em alguns anos, agora acrescidos de megatelões de LED, som, logística, equipes técnicas e toda a engrenagem de um megaevento. Ainda que o valor atual não seja informado com transparência na divulgação ao grande público, a experiência recente mostra que shows pirotécnicos desse porte raramente custam pouco. Fala-se em responsabilidade fiscal, mas o cidadão comum continua sem resposta clara sobre quanto da sua carga tributária está sendo literalmente queimada em luzes coloridas a cada Réveillon.

O paradoxo fica ainda mais incômodo quando se lembra que, no último Ano Novo, Praia Grande esteve entre as cidades que cancelaram a queima de fogos, alegando respeito a pessoas no espectro autista, animais, idosos e acamados, e defendendo que o dinheiro fosse redirecionado a outras prioridades.  Menos de um ano depois, a mesma gestão volta a promover o “maior show de fogos da Baixada”, desta vez turbinado por telões e arenas do Estação Verão, dentro de um cenário em que a própria administração admite falta de recursos para exames, escolas e serviços básicos.

Não se trata de demonizar festas populares nem de negar a importância do turismo para a economia local. Praia Grande vive do mar, da orla cheia, da temporada aquecida. A questão é outra: qual é a mensagem que se passa quando, em meio a filas de 80 mil pessoas na saúde, escolas à espera de manutenção e abrigos de ônibus literalmente desabando sobre crianças, a principal vitrine da gestão é um show de dez minutos de fogos e um tapete de LEDs na areia. Em tempos de orçamento “subestimado”, talvez o céu devesse brilhar menos, e o chão – onde o cidadão pisa, espera ônibus, busca vaga em UPA e coloca o filho na rede pública – receber um pouco mais de luz.


#PraiaGrande #BaixadaSantista #Reveillon2026 #QueimaDeFogos #GestaoPublica #OrcamentoPublico #Saude #Educacao #Seguranca #TransportePublico

Postar um comentário

0 Comentários