Asfixiada por déficit bilionário e por um modelo estatal engessado, a companhia tenta sobreviver com um enxugamento drástico de estrutura e pessoal
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| Edifício sede dos Correios, símbolo de uma estrutura estatal que agora busca na venda de imóveis e no corte de pessoal uma saída para a crise financeira. Foto: Reprodução. |
A centenária história dos Correios no Brasil enfrenta o seu capítulo mais dramático e incerto. Pressionada por um patrimônio líquido negativo de 10,4 bilhões de reais, a direção da estatal anunciou nesta segunda-feira um plano de reestruturação que desenha o encolhimento da empresa em níveis inéditos. O projeto prevê o fechamento de mil agências próprias e a saída voluntária de 15 mil funcionários até 2027, uma tentativa de estancar a sangria financeira que já soma 6 bilhões de reais negativos apenas nos nove primeiros meses de 2025.
O diagnóstico apresentado pelo presidente da companhia, Emmanoel Rondon, revela uma estrutura engessada: 90% das despesas são fixas, o que impede qualquer manobra ágil diante da concorrência voraz do comércio eletrônico e da obsolescência das cartas. Para o cidadão, especialmente em regiões onde a agência postal é o único elo com o restante do país, a promessa é de que a universalização do serviço não será ferida. No entanto, o fechamento de 16% das unidades próprias sinaliza que a eficiência financeira passará a ditar o ritmo da logística nacional.
Além do corte de pessoal, o plano atinge diretamente o bolso e a segurança do servidor. Estão previstos cortes severos nos aportes da estatal para os planos de saúde e de previdência, hoje considerados insustentáveis pela gestão. A venda de imóveis e a busca por um empréstimo de 12 bilhões de reais com bancos privados são medidas de sobrevivência imediata para garantir o caixa. Mas o horizonte aponta para uma mudança ainda mais profunda: o fim do capital 100% público. A partir de 2027, a abertura de capital para tornar os Correios uma empresa de economia mista, nos moldes da Petrobras, deixa de ser um tabu e passa a ser uma meta de salvação.
Na Baixada Santista e em todo o estado, onde o fluxo de encomendas é vital para a economia local, o plano gera um sinal de alerta. Enquanto a estatal justifica o déficit estrutural de 4 bilhões de reais anuais como o preço de chegar onde ninguém mais chega, a realidade do mercado mostra que o tempo da exclusividade postal acabou. O desafio agora é evitar que o gigante de argila desmorone antes que a reestruturação prometida consiga, de fato, entregar resultados.


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