A tragédia em Cidade Líder revela o colapso mental de profissionais que operam o "trabalho sujo" da sociedade sob total negligência institucional
![]() |
| Viatura e policiais preservam o local do crime enquanto aguardam a perícia em residência da Zona Leste de São Paulo. Foto: Reprodução/SBT. |
O cheiro de gás que emanava da residência na Rua Campo da Vinha, em Cidade Líder, não era apenas um alerta de perigo físico, mas o sinal final do colapso de uma estrutura humana moída pelo sistema. Na tarde desta quinta-feira, o ex-policial penal Aulenilso Da Silva, de 52 anos, transformou o lar em uma extensão do cárcere que operou por anos. O desfecho foi a face mais cruel do abandono: ele tirou a vida da esposa, a também policial penal Áurea Ferreira, de 41 anos, e do filho do casal, de apenas 4 anos, antes de tirar a própria vida.
A mudança de nomenclatura de agente penitenciário para Policial Penal não foi acompanhada por uma mudança na realidade brutal enfrentada por esses homens e mulheres. O caso levanta o véu sobre uma categoria que executa o trabalho invisível e ingrato de custodiar aqueles que a sociedade decidiu isolar. São profissionais que lidam diariamente com criminosos de alta periculosidade, operando em um ambiente de tensão constante, mas que, ao atravessarem o portão da unidade prisional, carregam consigo traumas que o Estado insiste em não tratar.
O cenário encontrado pelo Grupo de Ações Táticas Especiais (GATE) e pelo Corpo de Bombeiros após os disparos relatados por vizinhos era de um isolamento absoluto. A liberação do gás de cozinha dentro do imóvel sugeria uma intenção de aniquilação total. Áurea, que ainda estava na ativa servindo ao sistema, e seu filho pequeno tornaram-se vítimas da mesma violência que a profissão tenta conter.
A crítica que emerge das paredes da residência é implícita, mas contundente: até quando o Estado enviará seus homens para o "trabalho sujo" sem oferecer o suporte psicológico proporcional ao risco? A baixa remuneração e a falta de assistência transformam o policial penal em uma bomba-relógio, abandonado à própria sorte após anos de exposição ao que há de mais sombrio na natureza humana.
O caso foi registrado no 53° DP como homicídio, feminicídio e suicídio. Enquanto a Secretaria da Segurança Pública analisa os laudos da perícia, o luto da categoria expõe a ferida aberta de uma classe que cuida de todos, mas não é cuidada por ninguém.
A tragédia em Cidade Líder não é apenas um crime bárbaro; é o grito desesperado de quem sucumbiu sob o peso de um abismo que o Estado finge não ver.


0 Comentários