Operação mira 26 condenados por estupro de vulnerável, alguns foragidos há anos e vindos de outros estados, e reforça alerta também para o litoral paulista
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| Ao amanhecer, viaturas e equipes da Polícia Civil deixam a base em São Paulo para cumprir mandados da Operação Sentinela de Aço contra condenados por estupro de vulnerável. Foto: Divulgação/SSP-SP. |
Logo nas primeiras horas da manhã desta quarta-feira (10), o silêncio das ruas da capital paulista foi cortado pelo ronco de viaturas da Polícia Civil. De uma base operacional, equipes formadas por 43 agentes deixaram o pátio em comboio, em direção à Zona Sul, Leste, Oeste e Norte da cidade. Era o início da Operação Sentinela de Aço, uma ação voltada exclusivamente para a captura de agressores sexuais de crianças e adolescentes.
Ao todo, 26 mandados de prisão estão sendo cumpridos contra condenados por estupro de vulnerável que, mesmo sentenciados, permaneciam em liberdade. Entre eles, há casos que escancaram o grau de crueldade desses crimes: um homem condenado a 85 anos de prisão por abusar de crianças da própria família; outro com pena de 15 anos pelo estupro de uma menina de apenas 3 anos; e um agressor que, segundo as investigações, violentou a mesma adolescente durante seis anos seguidos.
A operação é coordenada pelo DHPP, departamento responsável por investigar crimes graves e que, nos últimos anos, ampliou o foco sobre a violência sexual contra menores. De acordo com a delegada divisionária Sandra Buzati, a prioridade é retirar de circulação criminosos já condenados que insistem em se esconder atrás de brechas e da lentidão do sistema. Ao mesmo tempo, a Polícia Civil busca sinalizar às vítimas e às famílias que as denúncias não caíram no esquecimento.
Os investigadores identificaram ainda um padrão entre os alvos da Sentinela de Aço: muitos deles também respondem por violência doméstica, o que revela um perfil de comportamento agressivo e de alto risco social dentro do próprio ambiente familiar. Em vários casos, o lar — que deveria ser espaço de proteção — foi justamente o cenário da violência.
Outro dado que chama a atenção é o deslocamento desses criminosos pelo país. Parte dos procurados cometeu os abusos em estados como Maranhão e Bahia e escolheu São Paulo como refúgio, numa tentativa de escapar da execução das penas. A presença desses foragidos na maior metrópole do país mostra como o combate à violência sexual contra crianças exige articulação interestadual e monitoramento constante.
Embora a operação de hoje esteja concentrada na capital, o recado ultrapassa as margens do Tietê e ecoa também no litoral, incluindo a Baixada Santista. Em regiões turísticas e densamente povoadas, como as cidades costeiras, a rede de proteção à infância convive com alta demanda, subnotificação e famílias que ainda têm medo de denunciar. Quando o Estado demonstra que vai atrás de condenados, mesmo anos depois do crime, abre-se um espaço importante para que mais vítimas rompam o silêncio.
Sentinela de Aço não resolve, sozinha, o drama da violência sexual infantil, problema que atravessa classes sociais, territórios e fronteiras. Mas cada mandado cumprido retira de cena alguém que já demonstrou ser uma ameaça real a crianças e adolescentes. Para cidades da Baixada Santista e de todo o litoral paulista, a lição é clara: sem denúncia, investigação e responsabilização, o pacto de proteção à infância vira apenas discurso. Com operações como esta, a sociedade é lembrada de que a impunidade não pode ser a regra.


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