Com média de 200 a 300 amostras por dia, farmacêuticos da Polícia Técnico-Científica encerraram 2025 com cerca de 25 mil laudos e ampliaram a capacidade de identificar compostos sintéticos antes que desapareçam do radar
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| Peritos analisam amostras biológicas em laboratório de toxicologia, etapa decisiva para identificar substâncias e fundamentar investigações criminais. Foto: Divulgação/SSP-SP. |
Não é no giro da viatura nem no barulho da sirene que muitas investigações ganham forma definitiva. Em São Paulo, parte decisiva do quebra-cabeça do crime costuma surgir em silêncio, dentro de frascos, tubos e lâminas, onde cada mililitro pode carregar a diferença entre suspeita e prova. É esse o cotidiano dos farmacêuticos forenses da Superintendência da Polícia Técnico-Científica, responsáveis por identificar substâncias tóxicas, medicamentos, drogas ilícitas e, cada vez mais, compostos inéditos que entram em circulação com rapidez.
Em 2025, o Laboratório de Toxicologia emitiu cerca de 25 mil laudos. Fundado em 1933 e considerado referência no Estado, o setor atua principalmente em ocorrências de crimes contra a pessoa, abastecido por um fluxo contínuo que não para: chegam, em média, de 200 a 300 amostras por dia, encaminhadas pelo Instituto Médico Legal de diversas regiões paulistas. A equipe, formada por seis peritos criminais farmacêuticos, mantém uma produtividade elevada, com aproximadamente 200 laudos mensais por perito.
O avanço das drogas sintéticas e das chamadas novas substâncias psicoativas impõe um desafio adicional: elas mudam de “rosto” com pequenas alterações na molécula, escapando de métodos tradicionais e exigindo atualização constante. Para reduzir o atraso entre a rua e o laboratório, o trabalho é apoiado por um sistema de alerta rápido, uma plataforma integrada que conecta governo, universidades, centros de informação toxicológica e laboratórios especializados. Quando uma nova substância é detectada, a comunicação circula com velocidade, permitindo que os laboratórios se preparem para reconhecer o que ainda nem virou estatística oficial.
Segundo a perita criminal e farmacêutica Raquel Carvalho, o desenvolvimento de métodos capazes de identificar essas variações é um passo decisivo para que as substâncias sejam reconhecidas formalmente, incluídas na legislação e, quando necessário, classificadas como proibidas. Na prática, isso significa que a perícia não apenas encontra o que está no organismo: ela ajuda a nomear, enquadrar e transformar o “desconhecido” em algo rastreável e punível quando a lei assim determinar.
As análises são feitas a partir de amostras biológicas como sangue, urina, vísceras e conteúdo estomacal. É nesses materiais que se busca a presença de drogas e medicamentos, avaliando não só se a substância existe, mas se a quantidade detectada pode ser tóxica ao organismo ou se se trata de algo vedado por norma. Equipamentos de alta precisão entram como aliados para separar e identificar compostos químicos, enquanto o olhar técnico do perito interpreta resultados a partir do conhecimento químico, biológico e dos efeitos no corpo humano.
Em homicídios, por exemplo, a toxicológica pode qualificar o crime ao apontar envenenamento ou a ação de agentes químicos específicos. Em situações de intoxicação involuntária ou overdose, o documento pericial esclarece circunstâncias, delimita hipóteses e evita que versões frágeis virem conclusão apressada.
No fim, o laudo não é apenas um papel que circula entre setores: é um freio contra o achismo e uma resposta objetiva em um cenário em que as substâncias mudam rápido, mas as consequências continuam as mesmas. Como resume a perita, o resultado toxicológico elucida o caso e também orienta o rumo do trabalho investigativo. Em tempos de drogas cada vez mais “ajustadas” para escapar do controle, a ciência forense segue tendo uma função ingrata e essencial: correr atrás do invisível para que o crime não se esconda atrás de uma fórmula.


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