Incidente traz à tona tensão permanente entre logística portuária, fluxo viário e fauna nativa no estuário de Santos
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| Jacaré é encontrado morto às margens da Rodovia Cônego Domênico Rangoni após ser visto horas antes circulando entre contêineres em terminal no Guarujá. Foto: Reprodução/Redes Sociais. |
Um jacaré foi flagrado caminhando tranquilamente entre contêineres em um terminal localizado nas proximidades da Rodovia Cônego Domênico Rangoni, em Guarujá, na noite de segunda-feira (24). Horas depois, o mesmo animal foi encontrado sem vida às margens da rodovia, em um desfecho que escancara, mais uma vez, o choque entre infraestrutura pesada e a fauna que ainda resiste no entorno do estuário de Santos.
Imagens às quais este Blog teve acesso mostram o jacaré circulando pela área operacional do terminal, em meio a estruturas metálicas e equipamentos. A cena, que poderia ser apenas curiosa, rapidamente ganhou contornos trágicos quando a concessionária Ecovias, responsável pela Cônego Domênico Rangoni, foi acionada por motoristas que avistaram um animal às margens da via. Ao chegar ao local, a equipe técnica constatou que o jacaré já estava morto.
De acordo com a empresa, o corpo foi recolhido seguindo os protocolos de segurança e bem-estar animal e encaminhado ao Zoológico do Parque Estoril, em São Bernardo do Campo, que comumente recebe animais silvestres vítimas de atropelamento ou resgate em rodovias. A destinação permite, em alguns casos, a realização de análises que ajudam a entender as circunstâncias da morte e o estado de saúde da fauna que circula pela região.
Procurada, a Autoridade Portuária de Santos (APS) afirmou não ter sido notificada formalmente sobre o caso, mas lembrou que a responsabilidade direta por ocorrências envolvendo animais silvestres na área do Porto de Santos é da Polícia Militar Ambiental. A estatal também reforçou que a presença de jacarés é frequente, já que a espécie integra o ecossistema natural de manguezais e canais que circundam o complexo portuário.
O episódio, no entanto, vai além de um simples registro de fauna avistada em área industrial. Ele expõe o permanente estado de tensão entre a expansão portuária, o tráfego intenso de caminhões e carros nas rodovias de acesso e a fauna que tenta sobreviver em fragmentos de habitat cada vez mais pressionados. Quando um jacaré é visto entre contêineres e termina morto na beira de uma rodovia, o que está em questão não é apenas o destino de um indivíduo, mas a ausência de uma política integrada que realmente reduza esses riscos.
Enquanto concessionárias, órgãos públicos e gestores do porto trocam responsabilidades e se amparam em normas e atribuições formais, a realidade à beira da pista e entre os contêineres segue a mesma: jacarés seguem surgindo, e muitos deles não voltam para o mangue.


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