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O deputado, o botox e a nota fiscal: um reembolso de R$ 123 mil que ninguém pediu para ver

José Rocha, denunciante do orçamento secreto, protagonizou um roteiro trágico-cômico ao tentar enfiar na conta pública uma harmonização dentária e um lifting

Deputado José Rocha, centro da polêmica após solicitar reembolso público para procedimentos estéticos. Foto: Reprodução.

Em Brasília, onde a criatividade para gastar dinheiro público costuma fazer inveja a roteiristas de Hollywood, o deputado federal José Rocha decidiu inovar no figurino: pediu à Câmara dos Deputados nada menos que R$ 123 mil para custear sua própria restauração estética. O pacote incluía harmonização dentária, rinoplastia e um lifting facial completo, daqueles que prometem devolver o tempo e levar as rugas embora – ou, no mínimo, esconder a realidade por trás de uma boa camada de pele esticada.

Os pedidos foram apresentados entre 2021 e 2022: R$ 43 mil para o combo rinoplastia e ritidoplastia com pálpebras, além de R$ 80 mil dedicados a devolver o sorriso perfeito. Do total solicitado, só R$ 56 mil foram reembolsados, referente ao tratamento odontológico. O resto foi recusado. E, ainda assim, o parlamentar garantiu, com a serenidade de quem esconde o recibo no bolso, que não recebeu um centavo.

Questionado por um portal sobre o sentido moral – e o bom senso mínimo – de usar dinheiro público para pagar sua corrida estética, Rocha respondeu com uma lógica capaz de emocionar qualquer advogado de defesa: “Se eu te pedir um milhão e você me der, eu sou culpado?” Com essa linha, abriu uma nova categoria no universo político: o esteticismo funcional. Segundo ele, nada ali tinha caráter estético. Ele só queria respirar melhor, mastigar melhor e, com sorte, manter a carreira política com uma cara melhor.

O detalhe mais saboroso do enredo é que Rocha não é qualquer deputado. Ele é o principal denunciante do Supremo Tribunal Federal na investigação do orçamento secreto, apontando o dedo para parlamentares que destinaram recursos públicos de forma irregular. Acusou até o presidente da Câmara, Arthur Lira, de manipular cifras para favorecer Alagoas.

A ironia, claro, não passa despercebida: documentos do Supremo mostram que o próprio Rocha direcionou sozinho R$ 152 milhões em emendas, concentrando verba para 84 municípios da Bahia, sua base eleitoral. A cidade de Coribe, por exemplo, recebeu uma bolada de R$ 9,8 milhões – uma média de R$ 700 por morador. O município tem apenas 14 mil habitantes e é administrado hoje pelo primo do deputado. No passado, o pai e o filho dele também comandaram a cidade. Tradição familiar e orçamento público, em perfeita harmonia.

Tudo somado, fica o retrato: enquanto milhões em emendas voam por caminhos nebulosos, o deputado que denunciou o esquema procurou rejuvenescer o rosto com dinheiro do contribuinte. Como se o país fosse seu salão de beleza particular.

Na vitrine política, o lifting pode até funcionar. Na memória do contribuinte, entretanto, a flacidez da narrativa é impossível de esconder.


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