Salve atribuído à facção manda recado a ladrões de quebrada e escancara atuação de poder paralelo nas periferias
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| Favela em morro de Santos, com vielas e moradias simples, simbolizando a atuação de poderes paralelos nas quebradas. Foto: Reprodução. |
O que deveria ser regra básica garantida pelo Estado – o direito de moradores viverem sem serem saqueados dentro do próprio bairro – passou a ser tema de “ordem interna” do crime organizado. Um comunicado atribuído ao Primeiro Comando da Capital (PCC), que começou a circular na terça-feira (2), determina a proibição de roubos de celulares e outros bens pessoais nas favelas e quebradas de São Paulo.
O salve é apresentado como uma espécie de ultimato da facção contra assaltos praticados dentro das comunidades. No texto, o grupo afirma que “se esgotou a paciência” com ladrões que vêm roubando moradores de áreas periféricas, justamente aqueles que, segundo o comunicado, compartilham das mesmas dificuldades e “mazelas” enfrentadas pelos próprios integrantes do crime.
Em tom de defesa dos moradores, o salve descreve essas pessoas como trabalhadoras, simples e constantemente pressionadas por um “sistema governamental opressor”. O discurso tenta aproximar o PCC da população local, apresentando a facção como uma espécie de guardiã informal da periferia, enquanto o Estado aparece como ausente ou incapaz de proteger quem vive nessas regiões.
A determinação é direta: ficam proibidos roubos de celulares, joias, eletrodomésticos, bicicletas, motos, carros e outros bens de moradores das quebradas. A mensagem também mira um alvo específico: as “novas gerações de criminosos”. Segundo o texto atribuído ao PCC, são esses “novatos no crime” que vêm cometendo ações consideradas “inadmissíveis até mesmo para nós criminosos”, como atacar quem vive e trabalha nas comunidades.
O comunicado afirma que, há anos, a facção tenta “instruir” os mais novos de que roubar dentro da quebrada é “mancada” e que esse tipo de conduta é passível de “cobrança à altura”. O recado resgata a lógica antiga do próprio crime, em que regras internas já previam punições para quem oprimisse moradores simples e humildes.
Na prática, o salve reforça a presença de um poder paralelo que dita normas, aplica sanções e ocupa espaços deixados pelo Estado em territórios vulneráveis. Ao assumir para si o papel de “regulador” da violência na periferia, o PCC não apenas organiza o crime, mas se insere no cotidiano de quem vive nessas áreas, interferindo diretamente na sensação de segurança.
Embora o comunicado se refira a favelas e quebradas da capital paulista, o conteúdo acende alerta em toda a Grande São Paulo e no interior, inclusive em regiões como a Baixada Santista, onde dinâmicas semelhantes de poder paralelo e ausência do Estado também são frequentemente relatadas por moradores. Em comum, está a realidade de bairros em que a lei oficial muitas vezes chega tarde – ou simplesmente não chega – e onde o crime tenta ocupar esse vácuo com suas próprias regras.


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