Cidade anuncia aumento de 5,35% e promete descontos, mas segue em dívida com qualidade de serviços e retorno à população
Quando os carnês do IPTU começarem a lotar as caixas de correio de Praia Grande, entre dezembro e janeiro, o contribuinte vai se deparar com um dado incômodo: o município aplicará o maior reajuste de toda a Baixada Santista para 2026, fixado em 5,35%. O índice segue a variação do IPCA entre julho de 2024 e junho de 2025, mas, na prática, representa mais peso no orçamento de quem já convive com serviços públicos que, segundo muitos moradores, não acompanham o ritmo da arrecadação.
Serão cerca de 257 mil carnês distribuídos, com primeira parcela vencendo em 10 de janeiro. A fila de boletos vem acompanhada de um discurso oficial de facilidades: descontos, programas de incentivo ao bom pagador, parcelamento em até 12 vezes e renegociação de dívidas. No papel, tudo parece organizado. Na realidade das ruas, o cenário é bem menos linear, com queixas recorrentes sobre buracos, iluminação precária, falta de manutenção em praças e dificuldades no acesso a serviços de saúde e assistência básica.
A prefeitura oferece 5% de desconto para quem pagar à vista e um benefício adicional de 5% para contribuintes sem pendências, podendo chegar a 10% de abatimento. O bônus ao “bom pagador” também se estende a quem optar pelo parcelamento. É uma estratégia de fidelização fiscal num momento em que o município cobra mais e promete compensar com pequenas vantagens. A questão que se impõe é se o desconto simboliza de fato um incentivo ou apenas um alívio mínimo diante de uma carga que segue crescendo ano após ano.
Nos bastidores da cobrança, a administração municipal aposta em tecnologia para agilizar a arrecadação. Em outubro, foram enviadas cartas com QR Code para facilitar o parcelamento de dívidas antigas. Agora, será lançado o Programa Fique em Dia, com o envio de 7,5 mil cartas a contribuintes inadimplentes, oferecendo renegociação, redução de juros e emissão de boletos por QR Code. A adesão poderá ser feita pelo site da prefeitura, no Paço Municipal ou por telefone e WhatsApp. A mensagem é clara: o município não quer abrir mão de nenhum centavo.
O contraste aparece quando se olha para o retorno desse esforço todo. A população é chamada a ser pontual, organizada, conectada, com QR Code na mão e imposto em dia. Em troca, espera-se o básico: ruas transitáveis, equipamentos públicos funcionando, segurança mínima, zeladoria contínua. Em muitos bairros, porém, o que se vê é uma cidade ainda marcada por problemas estruturais que se arrastam há anos, enquanto o IPTU segue corrigido, reajustado e ampliado com precisão matemática.
Ao anunciar o maior aumento da região, Praia Grande assume um protagonismo que vai além das estatísticas fiscais. A cidade envia um recado ao contribuinte: a conta virá mais alta, mas a promessa de melhora concreta na qualidade de vida continua, em grande parte, pendurada no discurso. Em tempos de orçamento apertado para as famílias, cada ponto percentual pesa – e a distância entre o que se cobra e o que se entrega se torna cada vez mais difícil de justificar.


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