Mulher denuncia agressões e cobra que Brasil e Portugal façam o mínimo: garantir que um suspeito de tentativa de feminicídio não transforme Santos em esconderijo
Uma brasileira de 33 anos, que vive há dez anos em Portugal, afirma ter sido brutalmente agredida pelo marido e denuncia que ele fugiu para Santos, antes de ser alcançado pela Justiça portuguesa. O caso, além da violência em si, escancara um ponto particularmente incômodo: a facilidade com que um suspeito de violência doméstica atravessa fronteiras e busca refúgio em uma cidade como Santos, como se nada tivesse acontecido.
A vítima, Sttefany Pires, nascida em Cabo Frio (RJ) e com cidadania portuguesa, contou que o episódio ocorreu na sexta-feira (21), na cidade do Porto, onde vivia com o marido, o caminhoneiro Michel Ferreira Silva, também de 33 anos. Segundo ela, a agressão foi motivada por ciúmes, após comunicar que queria o divórcio. Ofensas verbais já seriam recorrentes, mas, de acordo com o relato, foi a primeira vez que ele partiu para a violência física.
O que Sttefany descreve não é um “desentendimento de casal”, mas um ataque violento: ela afirma que foi golpeada com faca no pescoço, levou diversos golpes na cabeça, precisou levar pontos, sofreu ferimentos no nariz, teve cabelos arrancados com puxões e ainda teve um dente quebrado. Feridas externas que se somam a marcas internas difíceis de dimensionar e que, infelizmente, soam familiares em tantos casos de violência contra a mulher.
Mesmo machucada, Sttefany procurou atendimento médico e registrou denúncia na polícia portuguesa, com exame de corpo de delito e acusação de violência doméstica com intenção de matar. Havia, segundo ela, um mandado de busca e apreensão agendado para a manhã de sábado. Antes disso, porém, Michel deixou Portugal: saiu do Porto de ônibus rumo a Lisboa e embarcou em um voo às 9h25 com destino ao Brasil.
A vítima afirma que, a partir de ligações e localização de celular, a polícia portuguesa confirmou que ele veio para Santos, onde tem familiares, no bairro Areia Branca. Ou seja, o ponto final da rota de fuga de um suspeito de agressão brutal contra uma mulher teria sido justamente o litoral paulista – cenário que causa preocupação e exige resposta firme das autoridades brasileiras.
Enquanto se recupera das múltiplas lesões, Sttefany tenta reorganizar a própria vida. Procura advogado para dar andamento ao divórcio e evitar que dívidas do casal recaiam sobre ela, já que o casamento foi formalizado em cartório. Em paralelo, lança mão da única arma a que muitas vítimas recorrem quando se sentem vulneráveis e desamparadas: a exposição pública do caso.
Em vídeo divulgado nas redes sociais, ela descreve as agressões e faz um apelo para que o rosto do acusado seja conhecido em todo o país, na esperança de que ele seja localizado e preso. “Hoje fui eu, amanhã pode ser outra”, diz, numa frase que ecoa o drama de tantas mulheres que enfrentam a violência doméstica e veem seus agressores circulando livremente.
É inaceitável que alguém acusado de um ataque dessa gravidade se beneficie da demora entre jurisdições para se esconder em outra cidade, outro país ou outro continente. Santos, com toda a sua história e seus problemas, não pode ser tratada como porto seguro para quem foge de uma acusação de violência contra mulher. Cabe às autoridades brasileiras e portuguesas, em cooperação, mostrar que essa porta de escape não está aberta.


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