Falhas na investigação e ausência de provas impedem júri popular e escancaram fragilidades na apuração de um dos homicídios mais brutais da Baixada Santista
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| Local onde o corpo do policial civil Marcelo Gonçalves Cassola foi encontrado, na Caneleira, e, ao lado, imagem do agente em vida, retirada de rede social. Foto: Reprodução. |
O assassinato do policial civil Marcelo Gonçalves Cassola, ocorrido em agosto de 2022, em Santos, aproxima-se de um desfecho inquietante: não haverá júri popular. Cinco homens denunciados como autores da execução foram impronunciados pela Justiça, libertados e retirados do banco dos réus por absoluta falta de provas minimamente sólidas que sustentassem a acusação.
A decisão, proferida pela Vara do Júri, deixa explícito que a investigação não conseguiu ultrapassar o terreno frágil da suposição. Os indícios apresentados se limitaram, essencialmente, a relatos indiretos, a chamada prova de “ouvi dizer”, incapaz de resistir ao contraditório judicial. Não houve testemunhas formais, não houve confirmação técnica que conectasse os acusados ao homicídio, tampouco elementos materiais que estabelecessem autoria.
O corpo de Cassola foi encontrado na ciclovia da Avenida Francisco Ferreira Canto, na região da Caneleira, com sinais evidentes de tortura e mais de 30 disparos de armas de fogo. A cena indicava planejamento, violência extrema e execução deliberada. Ainda assim, o rigor do crime não foi acompanhado por uma investigação capaz de produzir respostas à altura da brutalidade do ato.
Durante a instrução processual, policiais responsáveis pela apuração afirmaram, com base em informações de terceiros não identificados, que os acusados teriam ligação com o PCC (Primeiro Comando da Capital) e que um homicídio dessa natureza não ocorreria sem o aval da facção. O raciocínio, porém, ficou restrito à dedução. Nenhuma das fontes prestou depoimento formal. Nenhuma prova técnica confirmou essa cadeia de comando.
Câmeras de segurança chegaram a apontar dois veículos supostamente envolvidos no crime. Ambos foram apreendidos. Perícias coletaram impressões digitais, mas elas não correspondiam aos denunciados, esvaziando ainda mais a narrativa acusatória. O resultado foi um processo sustentado mais por inferências do que por fatos comprovados.
A consequência é direta e dura: sem provas, não há júri. A execução de um policial civil, servidor público, pai de duas crianças pequenas à época, entra para a lista de crimes graves que permanecem sem responsabilização penal. Não por absolvição, mas por falha estrutural na construção da acusação.
Resta apenas um desdobramento residual: um dos acusados responderá por roubo, após ter sido localizada sua digital no carro da vítima, abandonado posteriormente em Cubatão. Ainda assim, a própria Justiça reconhece que esse ato ocorreu após o homicídio, sem vínculo direto com a morte, o que reforça a desconexão entre o crime principal e os elementos efetivamente apurados.
O caso Cassola expõe mais do que um assassinato sem resposta. Revela o custo institucional de investigações que não conseguem transformar suspeitas em provas, nem narrativas em verdades processuais. Para a família da vítima e para a sociedade, fica o vazio: um crime de extrema gravidade que, aos olhos da Justiça, não encontrou quem pudesse ser formalmente responsabilizado.


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